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Apropriação Cultural: O que é?

Publicado dia 23/01/2022 às 20h13min | Atualizado dia 23/01/2022 às 20h37min
O que é apropriação cultural? Conceito tangencia do colonialismo ao nazismo

O conceito de cultura reúne em si uma série de elementos de um grupo, nação ou povo, como vestimentas, comidas típicas, crenças religiosas, línguas e outros aspectos sociais. Ao longo da história da humanidade, as culturas passaram por modificações, seja pelo contato pacífico com outros povos e outros modos de vida, seja por outros fatores, como colonização e guerras.

Mas, então, o que é apropriação cultural? Quando afirmar que uma pessoa ou grupo está se apropriando de uma cultura? Como balancear essa agregação e troca de tradições culturais de forma respeitosa? Ecoa conversou com um doutor em antropologia e um sociólogo historiador de arte para responder a essas e outras perguntas.

costumes. "Quem realmente se dedica a ouvir, dialogar e a conhecer o outro aprende a respeitá-lo, e não apenas a se apropriar de sua cultura em benefício próprio", completa.

Quando surge o conceito de apropriação cultural e qual sua importância?

A absorção da cultura entre povos acontece desde a Antiguidade, sendo um processo inerente às sociedades. "O ser humano sempre aprendeu coisas com outros povos, trocava com outras culturas. Então, como definir o que é de quem?", indaga o historiador de arte.

Dias traz um exemplo de apropriação cultural do ocidente com as culturas orientais: quando se pensa em macarrão, logo vem à mente a cozinha italiana. No entanto, o ingrediente não nasceu na Itália, mas sim na China; os italianos modificaram seu preparo e impuseram outra identidade ao prato.

"Estudiosos de antropologia apontam há muito tempo que não há nada que possa ser considerado puro, seja cultura ou etnia. Pois pertencemos a um grupo do momento que partilha valores morais e outras questões sociais, mais do que questões propriamente biológicas", afirma Dias.

Entretanto, ele enxerga que há uma luta identitária e justa, sobretudo de grupos excluídos, que têm sua cultura apropriada por outros em uma relação de dominância e sem respeito a essas origens.

"O que está em jogo é justamente que determinados grupos e países, como os da Europa e Estados Unidos, se apropriaram da cultura do mundo e subjugaram todo o resto. Agora, todos os grupos excluídos estão cobrando a sua parte da identidade, que lhes foi roubada. São todas questões que não foram resolvidas e precisam ser debatidas até que sejam", diz o historiador de arte.

O debate sobre apropriação cultural como o conhecemos hoje é recente e data das últimas décadas. Entretanto, Dias lembra que, ainda que não nomeado, essa problemática começa a ser vista já após a Segunda Guerra Mundial, principalmente nos períodos posteriores ao nazismo.
"É interessante lembrar que o próprio nazismo usou crianças loiras judias para fazer propaganda nazista, apresentando esses jovens como modelos da raça ariana. Se diz que, com o Nazismo, a Europa fez consigo mesma o que fez com o resto do mundo", comenta o sociólogo.

Como 'consumir' e admirar outras culturas de forma respeitosa?

Comer um prato de macarronada, por exemplo, não é uma apropriação cultural. "Há também produtos que se tornaram parte indissociável da cultura brasileira e são originalmente indígenas, como a mandioca e o açaí. Não se trata de apropriação cultural preparar tapiocas ou comer tigelas de açaí", comenta Basques.

No entanto, conhecer as origens das coisas pode ser um caminho interessante e respeitoso com outras culturas. "É lamentável que nós saibamos que lanches de fast food são tipicamente norte-americanos, que existem chás tradicionalmente ingleses e chapéus panamenhos, mas que o Brasil e os brasileiros quase nada saibam ou queiram saber sobre os povos indígenas que estão aqui e agora, entre nós, no presente, no mesmo país em que vivemos", completa o antropólogo.

Em 2020, a marca Prada foi acusada de apropriação cultural por lançar uma coleção de sandálias de couro trançado muito semelhante às tipicamente brasileiras feitas por artesãos da Região Nordeste. Levando o nome da marca, o calçado custa cerca de 80 vezes mais do que o vendido nas feiras de Caruaru. O apontamento foi feito na coluna de Milo Araújo em Ecoa.

Para Basques, é necessário cuidado ao se consumir itens de uma outra cultura e é preciso se fazer algumas perguntas. "Consumo é um ato político, que revela as nossas ideias, valores e atitudes. Antes de comprar ou usar qualquer coisa, não custa nada refletir: o que eu sei sobre essa coisa que me chama a atenção? De onde ela vem? Quem a produz? Quanto essa pessoa ganha por esse produto? O que mais eu poderia aprender com essa pessoa, além de usar um objeto que faz referência a ela e à sua cultura?", aponta.

O antropólogo ainda orienta que, se o interesse for real, o ideal é comprar itens diretamente dessas pessoas. "Se você tem um interesse sincero pelos povos indígenas e gostaria de ter um artefato na sua casa ou para vestir, por que não comprar de artistas indígenas?", orienta.

Basques ainda aponta que o consumo de produtos propriamente indígenas, por exemplo, pode ser uma alternativa respeitosa de apreciar a cultura. E traz um exemplo:

"Há iniciativas recentes e bem-sucedidas, como a pimenta produzida pelo povo indígena Baniwa, cujo território se encontra no estado do Amazonas, na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. Isso mostra que podemos incrementar à nossa alimentação e gastronomia produtos indígenas, mas reconhecendo os direitos autorais e econômicos das pessoas e comunidades que plantam, colhem, processam e comercializam essas pimentas - que hoje podem ser compradas inclusive pela internet", comenta.

 

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

Fonte: Uou Notícias

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